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EP. VII
O TERAPEUTA

 

JULIA: O tempo sempre passa. O amanhã sempre vem. A gente nunca pode verdadeiramente deixar algo pra depois, por que o tempo passa. Seria tudo de bom se a vida tivesse um botão. Nem um controle inteiro, só um botão. Pra pausar e despausar, quando desse vontade. Onde se pudesse realmente descansar. Mas esse botão não existe. O amanhã sempre vem, e com ele, todas as responsabilidades, decisões e incertezas. Mas querendo ou não, essa é a vida. É assim que as coisas vão. Sem parar. Porque se parar você cai, mas é bem difícil levantar. Eu… [*Suspiro] Devia me preparar para a consulta, o Eric deve estar chegando.

 

[*GRAVADOR DESLIGA]

 

LUCAS: Olá. Meu nome é Lucas Fouyer, e eu sou o criador do Terapeuta. Terapeuta é uma obra de ficção, e um podcast de áudio drama serializado. Portanto, é recomendado que se escute os episódios anteriores antes de vir para este. Esse podcast sai todo último dia do mês. Por conta de problemas com troca de elenco e mudanças no roteiro, esse episódio está saindo um pouco atrasado. Pedimos mil desculpas pelo atraso. Outro ponto importante é que nesse mês de Dezembro, Terapeuta sairá de férias. Mas voltamos com novos episódios no 31 de Janeiro. Fique ligado ao final do episódio, onde teremos mais informações sobre o podcast e o episódio. Agora relaxe-se, e escute o sétimo episódio do Terapeuta.

 

[*GRAVADOR LIGA]

 

JULIA: [*Silêncio] Não é só o trabalho que está me cansando. Tudo em volta… Essa cidade… [*Pausa] As coisas que vem acontecendo estão me deixando doida. O desaparecimento do Luke, a fuga de Oscar [*Pronuncia-se "Ós-cáhr"], essa organização que o Gabe vem investigando e o que o Oscar falou sobre isso… Talvez não seja o trabalho, talvez seja o lugar. Claro, talvez eu diga isso por não ter forças pra falar que o problema sou eu, mas de qualquer forma, essa cidade não é uma cidade comum. Não só pelas pessoas que vivem aqui, mas algo mais. É a cidade em si. [*Pausa] [*Campainha toca] Parece que o Gabe [Aqui o nome está correto, é o Gabe mesmo, ou o Eric, que é atendido logo abaixo? 🤔] chegou. Será que teria problema se eu simplesmente fingisse que não estou aqui? [*Pausa] [*Campainha toca novamente] [*Suspiro] Melhor eu ir atender.

 

[*GRAVADOR DESLIGA]

 

[*GRAVADOR LIGA]

 

JULIA: Olá Eric.

ERIC: Olá amigos do YouTube!

JULIA: Oi?

ERIC: Ah, desculpa, costume. É assim que eu começo meus vídeos no YouTube.

JULIA: Ah, sim. Bem, como vai sua semana, Eric?

ERIC: Ah, vai bem… Acho. [*Pausa] Um vídeo meu ficou em segundo lugar no “Em Alta no YouTube”.

JULIA: Ah, isso é bom, não?

ERIC: Acho que sim… Em primeiro lugar ficou um vídeo sobre um atentado que ocorreu na Síria… [*Irritado] O meu vídeo podia ter ficado em primeiro, se não fosse por esse atentado aí!

JULIA: [*Assustada] Ok… [*Normal] Aconteceu mais alguma coisa com você essa semana?

ERIC: Bem, não sei se você sabe, mas meu canal, Ericfilms, alcançou um milhão de inscritos já tem umas semanas…

JULIA: Ah, não sabia, parabéns!

ERIC: É, é, mas até agora não recebi a placa me parabenizando pelos inscritos. Eu não sei como eles conseguem ser tão lentos…

JULIA: Bem, mas o que importa é que você atingiu um milhão de inscritos, não?

ERIC: Você não entende! Tem tanta coisa que eu podia fazer com a placa: Colocar na parede, jogar no chão, cortar… Sem contar que são só um milhão de inscritos. Já tem canais com muito mais! O que o Pewdiepie tem que eu não tenho?

JULIA: Quem?

ERIC: Er… Não importa. Pelo menos os meus hipopótamos são fãs leais.

JULIA: Hipopótamos?

ERIC: É, é como eu chamo os meus fãs.

JULIA: Por algum motivo específico?

ERIC: É que quando eu era menor, eu ia sempre em um zoológico perto de casa, e lá tinha um hipopótamo. A primeira vez que eu o vi, me apaixonei pelo animal, e comecei a ir visitá-lo toda semana. Tínhamos uma conexão especial, ele e eu. Um dia, eu fui ao zoológico, mas ele não estava lá. Eu continuei voltando para ver se ele aparecia, mas não. Depois fui descobrir que ele tinha falecido. A amizade que eu tinha com aquele hipopótamo é refletida no carinho que eu tenho pelos meus fãs…

JULIA: Nossa, que história.

ERIC: Pelo menos é o que eu falo para os meus fãs. A verdade é que eu só escolhi o nome por que gosto do animal. Essa história eu vi num filme.

JULIA: [*Suspiro] Eric, você lembra do que conversamos em nossa última consulta? Em que você falou que queria descobrir quem era de verdade?

ERIC: Sim, sim…

JULIA: E você teve alguma revelação em relação a isso?

ERIC: Não. Eu por mim ainda não descobri. Mas às vezes parece que o mundo inteiro já me descobriu…

JULIA: Como assim?

ERIC: Bem, muitas pessoas chegam por meio das redes sociais e me falam que eu sou um arrogante, babaca, que quero ser o centro das atenções.

JULIA: E… Teriam eles algum motivo para falar essas coisas?

ERIC: [*Suspeito] Eu… Posso ter deixado uma mensagem ou outra criticando…

JULIA: [*Limpando garganta]

ERIC: É, xingando alguns outros Youtubers…

JULIA: Eric!

ERIC: Chama atenção pra mim, pro meu nome! O que você quer que eu faça?!

JULIA: Esse não é o modo certo de chamar atenção! Se você é um produtor de conteúdo, produza conteúdo! Que seja bom! O melhor modo de chamar atenção, é com conteúdo bom e criativo, por coisas positivas.

ERIC: [*Pensativo] Humm… [*Normal] E se eu fizesse um sorteio?

JULIA: Ah, legal…

ERIC: Concorrendo a passar um dia comigo, um concurso principalmente para esse público mais jovem, que precisam de alguém pra os inspirar, sabe?

JULIA: [*Atenta] Uhum.

ERIC: E eu cobrava pra cada criança participar, e assim ganhava uma grana!

JULIA: Sim! Pera… Não, não! Você está falando de usar crianças para arrancar o dinheiro dos pais pra lucrar com isso?

ERIC: Isso!

JULIA: Não! Isso é… [*Pausa] [*Suspiro] Você chegou perto. Que tal… Fazer isso mesmo, mas sem a parte do dinheiro?

ERIC: É, não é a mesma coisa mas… Ok.

JULIA: Já é um bom passo. E focar em fazer um bom conteúdo, fazendo o certo… Esse é o modo certo de chamar atenção pra si e para o seu nome.

ERIC: Claro, claro.

JULIA: Claro, que nem tudo pode ser sobre chamar atenção. Nem tudo pode ser sobre você.

ERIC: Sério?

JULIA: Sério!

ERIC: Ah, cara…

 

[*GRAVADOR DESLIGA]

 

[*GRAVADOR LIGA]

 

JULIA: Estou cansada. Mesmo. Não um cansaço físico… Não entendo direito. Só sei que estou cansada. Mas eu não posso parar, eu… [*Campainha] Ah, sim. Meu mais novo paciente está aqui. Michael (*Pronuncia-se "Máiquel"] Não sei muito sobre ele mas… Acho que estou prestes a conhecer.

 

[*GRAVADOR DESLIGA]

 

[*GRAVADOR LIGA]

 

JULIA: Olá Michael.

MICHAEL: [*Sereno] Olá Doutora Julia. Se importa se eu lhe chamar só por “Julia”?

JULIA: [*Surpresa] Sim, mas, uhn… Se importa se eu perguntar o porquê?

MICHAEL: Bem, acho “Doutora” muito formal. Para podermos nos conhecer melhor, eu prefiro o uso do primeiro nome.

JULIA: [*Satisfeita] Ok… Então, Michael, qual o seu emprego?

MICHAEL: Eu… Ouço pessoas. E dou conselhos.

JULIA: Hum, mais ou menos o que eu faço.

MICHAEL: Não, Julia. É exatamente o que você faz.

JULIA: Espera, você é terapeuta?

MICHAEL: [*Pequena risada] Sim. Hipnoterapeuta, na verdade. Eu trabalho com hipnose.

JULIA: Caramba. Hipnose… Eu sempre tive curiosidade com essa área. Você é de onde?

MICHAEL: É… Eu não sou daqui. Sou da cidade de Gangville [*Pronuncia-se “guéng-víl”]

JULIA: Ah! Imaginei mesmo que você não era daqui. Sou a única terapeuta da cidade. Que eu conheça, pelo menos! [*Risada]

MICHAEL: [*Risada]

JULIA: Mas então, o que o terapeuta está fazendo aqui?

MICHAEL: Bem, eu ajudo as pessoas, mas quem que vai me ajudar? “É sempre bom fazer terapia”, é o que eu sempre falo, afinal, é preciso manter o machado afiado. E a terapia é pra todos, pois penso que pra melhorar, não precisa estar ruim!

JULIA: Huh, engraçado. Eu falo exatamente isso. [*Pausa] Mas por que agora?

MICHAEL: Bem, eu também sou o único terapeuta de minha cidade. Por isso, eu costumava ir sempre à cidade ao lado, Aldorado, fazer minhas sessões com a Doutora Kátia. Mas um ano atrás ela partiu dessa pra melhor. Ou pelo menos eu espero que seja melhor.

JULIA: Minhas condolências.

MICHAEL: Muito grato. Já faz um tempo isso, eu já superei, apesar de ainda ser bem triste. Ela foi assassinada por um antigo paciente. Oscar. [*Pronuncia-se "Ós-cáhr"] Mas mesmo na época isso não me deixou tão mal. Claro, fiquei triste, e de luto por um pequeno tempo. Mas não enlouqueci nem nada. Eu consegui me controlar melhor. Principalmente com a ajuda da auto-hipnose.

JULIA: É, a hipnose é realmente interessante. [*Pausa] Mas depois de um ano, por que voltar agora?

MICHAEL: Ah… Minha vida estava muito corrida. E eu sei que se deve sempre encontrar um tempinho pra fazer terapia, mas as coisas estavam realmente difíceis. Eu experimentei fazer online por um tempo, porém presencial é sempre mais válida. E como agora estou de férias, tenho mais tempo.

JULIA: Férias? Huh, tá aí algo que não vejo faço faz tempo.

MICHAEL: Ah, mas por que não? É bom pro corpo e pra alma. Eu tiro férias duas vezes ao ano: Em Dezembro e em Julho.

JULIA: Ah, não sei. Eu venho trabalhando e trabalhando… E eu sinto que se eu parar, todo meu trabalho vai cair por terra, sabe?

MICHAEL: Ah, eu entendo o sentimento. Mas acredite em mim, não vai. Vai tudo dar certo. Férias são ótimas. E você pode até aproveitar pra fazer terapia…

JULIA: Talvez… Mas você não viaja?

MICHAEL: Ah, sim. Às vezes. Mas não toda vez que tiro férias. É maravilhoso viajar, mas também é muito bom poder parar e descansar na sua própria casa. [*Pausa] Vai tudo dar certo, Julia. E você merece. Você cuida das pessoas, mas esquece de si mesma, não? Eu sei como isso é, eu sou terapeuta também. Mas é importante que você lembre de se cuidar. Afinal de contas, ninguém pode dar o que não tem.

JULIA: Acho que você está certo. Mas talvez se eu parar, não vou nem querer voltar.

MICHAEL: Por quê?

JULIA: Bem… Às vezes duvido da minha competência. Não posso contar aos outros, à ninguém, já que dependo das pessoas vindo aqui pra eu poder ganhar meu dinheiro, mas não acho que sou um boa psicóloga. Claro, eu escuto, entendo, e dou bons conselhos. Mas não vejo a diferença. Se o problema sou eu, do que adianta isso tudo?

MICHAEL: Julia, você tem algum paciente que tem ansiedade?

JULIA: Sim…

MICHAEL: Bem, nesse caso você é quem está bem ansiosa. As coisas mudam, só precisam de tempo.

JULIA: Mas será que mudam mesmo?

MICHAEL: [*Suspiro] Deixa eu pegar um exemplo. A humanidade. Ainda existe muito ódio, muita guerra, muito preconceito. E isso é triste e algo que temos que mudar, porém… O fato de o agora estar ruim não quer dizer que as coisas pioraram. As coisas antes eram piores. A evolução acontece, porém ela é lenta. Precisamos de trabalho e paciência. Pescador impaciente não pesca peixe nenhum.

JULIA: [*Suspiro] Talvez… Você esteja certo. Eu vou tentar diminuir essa minha ansiedade em relação a isso.

MICHAEL: Vamos eliminar esse “tentar”, “talvez”, o “acho”… Palavrinhas que nos prejudicam mais do que imaginamos. Como dizia um sábio homem verde e baixinho, “Faça, ou não faça. Não existe o ‘tentar’”.

JULIA: Eu devia passar pelo seu consultório um dia desses…

MICHAEL: É só agendar. Como eu disse, estou de férias no momento, mas sempre posso abrir uma exceção para uma colega terapeuta.

JULIA: Obrigada.

MICHAEL: É, desculpe a pergunta, mas… essa consulta ainda vai ser cobrada?

 

[*GRAVADOR DESLIGA]

 

[*GRAVADOR LIGA]

 

JULIA: Eu terminei a sessão com Michael. Ele não me pagou nada, já que a consulta foi na verdade minha com ele. Fazia muito tempo que eu não fazia algo assim. Na verdade, agora pensando, não me lembro se eu já tinha feito algo assim. Ele é um bom terapeuta, melhor do que eu. Com menos problemas que eu… Por um bom tempo, minha única terapia tem sido… Você. Esse gravador velho, com quem eu falo, como se alguém do outro lado me ouvisse. E tem me ajudado, sem você eu já teria pirado faz tempo. Mas a ideia de Michael é boa. Eu vou sair de férias. Só por um mêszinho, nada demais. Mas eu mereço. Eu trabalho muito! E ainda com tudo isso que vem acontecendo… Essa organização secreta do Gabe, a fuga de Oscar [*Pronuncia-se "Ós-cáhr"], o sumiço de Luke. Eu lido com bem mais coisas que sua típica terapeuta. Eu mereço umas férias, e vou pegar o que mereço.

 

[*GRAVADOR DESLIGA]